
O crescimento do Partido Liberal nas eleições de 2026 já começa a redesenhar a relação de forças entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF). Setores do PL e integrantes da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro passaram a analisar a composição do Senado que tomará posse em 2027 e colocam o avanço de pedidos de impeachment contra ministros da Corte, especialmente Alexandre de Moraes, entre as principais pautas para a próxima legislatura.
A movimentação ganhou força após o resultado das urnas. O PL elegeu 19 senadores nas eleições de 4 de outubro e, somados aos parlamentares que ainda possuem mandato, deverá iniciar 2027 com 28 das 81 cadeiras do Senado, tornando-se a maior bancada da Casa.
Nos bastidores políticos, aliados de Flávio Bolsonaro avaliam que o novo desenho do Senado cria condições mais favoráveis para pautas que enfrentavam forte resistência na atual composição. Entre elas está justamente a possibilidade de abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo.
Segundo informações publicadas nesta terça-feira (6), integrantes do PL passaram a classificar a discussão envolvendo Alexandre de Moraes como uma questão prioritária e, para determinados setores do partido, “inegociável”. A estratégia, entretanto, dependerá da capacidade de ampliar o apoio para além da própria bancada da legenda.
Cálculo passa pelos 54 votos
Mesmo com 28 senadores, o PL não teria votos suficientes sozinho para concluir um processo de impeachment.
Em uma eventual fase de julgamento, são necessários dois terços dos integrantes do Senado, ou 54 dos 81 senadores, para a condenação e consequente perda do cargo de um ministro do Supremo.
Levantamentos divulgados após as eleições apontam que o número de parlamentares considerados favoráveis a processos de impeachment de integrantes do STF cresceu significativamente, mas ainda não significa que exista um bloco consolidado de 54 votos especificamente contra Moraes.
Parte das projeções situa o grupo favorável a medidas dessa natureza próximo de 49 senadores, enquanto avaliações feitas nos bastidores do próprio Supremo trabalham com cenários que poderiam chegar a aproximadamente 52 votos, dependendo das circunstâncias políticas e da pauta em votação.
Isso significa que, embora o cenário de 2027 seja significativamente mais favorável à oposição do que o atual, qualquer processo dependerá de negociação com senadores de outras legendas, especialmente Republicanos, PP, União Brasil, MDB, Novo e setores independentes.
STF acompanha novo cenário com cautela
A mudança na correlação de forças também começou a ser acompanhada dentro do Supremo.
Ministros avaliam que ainda é cedo para considerar que todos os parlamentares eleitos dentro do campo conservador formarão automaticamente um bloco contra a Corte. A avaliação é de que existem diferenças importantes entre os novos senadores e que parte deles mantém perfil mais moderado ou relações políticas próximas ao Centrão.
A composição partidária, portanto, não necessariamente se converterá de maneira automática em votos para um eventual afastamento de ministro.
As articulações para a escolha do próximo presidente do Senado também serão determinantes. Cabe à Presidência da Casa papel central na tramitação de pedidos de impeachment apresentados contra ministros do Supremo, transformando a disputa pelo comando do Senado em uma das peças mais importantes do tabuleiro político de 2027.
Maior bancada do PL desde a Constituição de 1988
O resultado eleitoral representa uma mudança expressiva no Senado.
Além dos 28 integrantes projetados para o PL, o PT deverá começar a próxima legislatura com nove senadores e o MDB com oito, enquanto outras legendas estarão distribuídas entre diferentes campos políticos. A dimensão alcançada pelo PL representa a maior bancada partidária no início de uma legislatura no Senado desde a Constituição de 1988.
A nova configuração amplia substancialmente a capacidade de articulação da direita, mas não garante maioria automática para decisões que exigem quórum qualificado.
Por isso, a disputa não deverá se restringir ao número de cadeiras conquistadas nas urnas. A capacidade de construir alianças e, principalmente, a eleição da próxima Mesa Diretora do Senado terão peso decisivo sobre quais pautas efetivamente chegarão ao plenário.
Segundo turno presidencial poderá definir rumo da disputa
Outro componente decisivo será o resultado do segundo turno da eleição presidencial.
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia ampliar a capacidade política do PL para construir alianças no Congresso e influenciar a formação de uma maioria em torno das pautas defendidas pela direita.
Flávio afirmou nesta terça-feira (6), durante agenda política em Goiás, que pretende utilizar a nova correlação de forças no Congresso para promover mudanças institucionais e constitucionais caso seja eleito presidente.
Uma vitória de Lula, por outro lado, colocaria o Palácio do Planalto diante de um Senado significativamente mais conservador e com uma oposição fortalecida, aumentando a importância das negociações com partidos de centro.
Independentemente do resultado presidencial, as eleições de 2026 deixaram uma consequência clara: o Senado que inicia seus trabalhos em 2027 terá peso ainda maior no equilíbrio entre Legislativo, Executivo e Judiciário.
O crescimento do PL e das forças conservadoras coloca temas relacionados ao Supremo Tribunal Federal novamente no centro da agenda política. E, nesse novo cenário, o futuro dos pedidos de impeachment contra Alexandre de Moraes poderá depender não apenas da pressão das ruas ou das declarações partidárias, mas principalmente da disputa pela Presidência do Senado e da construção — voto a voto — de uma maioria de 54 parlamentares.



