A eleição de Douglas Ruas (PL) para o governo do estado do Rio de Janeiro, confirmada no primeiro turno após uma decisão da Justiça Eleitoral, pode ter surpreendido muita gente. Mas, entre as muitas discussões que tomaram as redes sociais depois da divulgação dos resultados, uma, em especial, chamou minha atenção: o clamor — pouco popular, embora bastante barulhento — pela volta da divisão entre o antigo estado da Guanabara e o estado do Rio de Janeiro.

A reação não surgiu do nada. A distribuição dos votos revelou uma diferença territorial expressiva: no primeiro turno, antes da retotalização, Eduardo Paes (PSD), que liderava as pesquisas em parte da campanha, venceu em 13 dos 92 municípios fluminenses, enquanto Douglas Ruas ficou à frente nos outros 79. Paes venceu na capital e em Niterói, entre outras cidades. Ruas, por sua vez, teve a maioria dos votos em municípios de diferentes regiões, incluindo São Gonçalo, sua cidade natal, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Campos dos Goytacazes, Petrópolis e Volta Redonda. 

O resultado foi seguido por manifestações que recuperaram uma antiga ideia: a de que a cidade do Rio de Janeiro deveria voltar a constituir uma unidade federativa separada do restante do estado. O argumento central é que a capital, por concentrar grande parte da população, da atividade econômica e da visibilidade política, acabaria submetida às escolhas de eleitores de municípios com realidades diferentes das suas. Há uma contradição importante nessa leitura. Afinal, se a decisão sobre o governo estadual deve considerar o conjunto do território, por que o peso político dos eleitores do interior e da Região Metropolitana deveria ser tratado como um problema quando o resultado não corresponde à preferência da capital?

A questão merece mais do que uma reação apressada aos números das urnas. Para entender por que a proposta de separação ainda encontra eco, é preciso voltar no tempo e reconhecer que a distância entre a capital e o restante do estado não começou nesta eleição. Ela atravessa a história política fluminense e ajuda a explicar tanto as disputas pela escolha da capital quanto as tensões que cercaram a fusão de 1975.

Durante o Império, a cidade do Rio de Janeiro ocupava uma posição singular. Em 1834, a cidade foi separada da província do Rio de Janeiro e organizada como Município Neutro, condição ligada ao fato de ser a sede da Corte. A província passou a ter sua própria capital, Niterói, enquanto a cidade do Rio manteve uma trajetória política e administrativa distinta. Com a Proclamação da República, essa configuração foi alterada, mas a separação entre a capital nacional e o território fluminense permaneceu. Em 1960, quando a capital federal foi transferida para Brasília, a cidade do Rio de Janeiro deixou de ser o Distrito Federal e passou a constituir o estado da Guanabara. O antigo estado do Rio de Janeiro, por sua vez, continuou tendo Niterói como capital. 

Essa história ajuda a compreender por que a escolha de Niterói como capital provincial nunca foi apenas uma questão de localização no mapa. A proximidade com a Corte, os vínculos políticos e a facilidade de articulação com o centro do poder pesaram em uma disputa que envolvia também o papel econômico e político das cidades fluminenses. Niterói estava próxima da cidade do Rio de Janeiro e das estruturas de poder que ali se concentravam. Mas isso não significa que fosse a única candidata possível, nem que reunisse, incontestavelmente, a maior força econômica da província.

Campos dos Goytacazes, por exemplo, tinha razões para reivindicar protagonismo. Ao longo do século XIX, a cidade se consolidou como um importante centro produtor de açúcar e articulador econômico do Norte Fluminense. Sua elite política defendia que Campos tinha condições de representar melhor os interesses da província, e a disputa pela capital envolveu argumentos sobre riqueza, produção, influência regional e acesso aos espaços de decisão. Petrópolis também apresentou sua candidatura. A discussão sobre onde deveria ficar a capital, portanto, expressava uma disputa mais ampla por recursos, visibilidade e poder político. 

As reivindicações campistas foram além da disputa pela sede administrativa. Em diferentes momentos, circularam projetos de maior autonomia para o Norte Fluminense, incluindo ideias de desmembramento territorial e de constituição de uma província própria, associada à identidade goytacaz. Essas propostas revelam que a sensação de distância em relação ao centro político não é recente. Muito antes da fusão entre a Guanabara e o Rio de Janeiro, já havia setores que consideravam insuficiente a representação dos interesses regionais nas decisões tomadas a partir da capital provincial.

A transferência da capital federal para Brasília, em 1960, não eliminou essa distância. A criação do estado da Guanabara garantiu à cidade do Rio de Janeiro uma estrutura política própria, enquanto o estado do Rio de Janeiro continuou organizado em torno de Niterói. Eram duas unidades federativas vizinhas, mas com trajetórias administrativas, interesses econômicos e identidades políticas diferentes. Essa separação seria encerrada em 1975, quando os estados da Guanabara e do Rio de Janeiro foram fundidos, dando origem ao território do atual estado do Rio de Janeiro.

A fusão, entretanto, não foi resultado de uma consulta popular aos moradores das duas unidades federativas. Foi uma decisão tomada durante a ditadura militar, por iniciativa do governo federal, formalizada pela Lei Complementar nº 20, de 1974, e implantada em março de 1975. A justificativa oficial apontava vantagens administrativas e de desenvolvimento, mas a medida também envolvia uma reorganização do poder político e da autonomia da antiga Guanabara. A população não foi chamada a decidir, por meio de plebiscito, se desejava a união dos dois estados. 

É difícil ignorar o caráter elitista de um processo que redesenhou o território e reorganizou a vida política de milhões de pessoas sem lhes dar a oportunidade de decidir diretamente sobre essa mudança. A fusão foi pensada e executada de cima para baixo, sob um regime autoritário, sem uma escuta ativa dos municípios e das populações que passariam a integrar o mesmo estado. A promessa de integração administrativa não significou, necessariamente, a construção de uma relação mais próxima entre a capital e o restante do território.

Na prática, a cidade do Rio de Janeiro continuou concentrando grande parte da atenção política, econômica e midiática. A fusão uniu os territórios no mapa, mas não resolveu as diferenças históricas entre eles. Em muitos aspectos, acentuou o distanciamento: a capital passou a olhar ainda mais para si própria, enquanto municípios do interior continuaram enfrentando dificuldades para fazer suas demandas chegarem aos espaços de decisão. A capital se enclausura nela própria, e o restante do estado permanece, tantas vezes, distante do centro onde se concentram os debates e as prioridades.

É nesse contexto que a eleição de 2026 ganha outro significado. O fato de Douglas Ruas ter ficado à frente em 79 municípios não demonstra, por si só, que todos esses eleitores compartilhem as mesmas ideias ou que o resultado represente uma posição unificada do interior contra a capital. Mas revela que a disputa pelo governo estadual se desenrola em um território amplo e diverso, cuja população não pode ser reduzida aos interesses ou às percepções de quem vive na cidade do Rio de Janeiro.

Também é preciso olhar para a maneira como o resultado se consolidou. Anthony Garotinho (Republicanos), ex-governador e campista, recebeu 274.411 votos no primeiro turno. Após o indeferimento definitivo de sua candidatura e a anulação desses votos pela Justiça Eleitoral, a retotalização elevou o percentual de Douglas Ruas de 49,27% para 50,88% dos votos válidos, confirmando sua vitória sem segundo turno. 

A decisão judicial provocou questionamentos e ampliou a controvérsia em torno do resultado. Para parte dos eleitores de Eduardo Paes, a exclusão dos votos de Garotinho impediu que a disputa fosse decidida em um segundo turno. Em meio a esse debate, a origem campista do ex-governador e a votação que recebeu no interior passaram a compor, também, as narrativas sobre a vitória de Ruas. O episódio contribuiu para alimentar a sensação de que o interior teria interferido decisivamente na escolha de um governador que, na percepção de alguns, deveria responder sobretudo aos interesses da capital.

Mas há algo de revelador nessa mágoa. Ao atribuir ao interior a responsabilidade por um resultado considerado indesejado, parte do debate parece esquecer o quanto a própria capital esteve distante das necessidades e das expectativas de municípios que integram o mesmo estado. O interior não é um bloco homogêneo, assim como a capital não representa uma vontade única. São territórios com histórias, economias, desafios e identidades diferentes, e todos têm o mesmo direito de participar da escolha de quem governa o conjunto.

A defesa da separação entre Guanabara e Rio de Janeiro costuma aparecer, nesse cenário, como uma solução simples para uma insatisfação política. Mas dividir novamente o estado não resolveria, automaticamente, os problemas de representação, desigualdade regional ou concentração de recursos. Tampouco apagaria a interdependência entre a capital, a Baixada, a Região Metropolitana e o interior. Antes de transformar a divisão territorial em resposta para uma derrota eleitoral, seria necessário discutir que estado queremos construir e como garantir que suas diferentes regiões sejam efetivamente ouvidas.

O mais curioso é que a fusão de 1975, decidida sem consulta popular, hoje é questionada por vozes que defendem uma nova separação sem que se veja, na mesma medida, uma preocupação em ouvir os municípios que seriam diretamente afetados por essa mudança. Se a ausência de participação popular foi um dos aspectos mais problemáticos da fusão, não faz sentido defender uma nova divisão reproduzindo a mesma lógica de decidir pelos outros.

O Rio de Janeiro não se resume à sua capital, por mais importante que ela seja. O estado é feito de 92 municípios, com diferentes trajetórias, identidades e necessidades. Campos, Petrópolis, Niterói, São Gonçalo, Volta Redonda, Macaé, Paraty e tantas outras cidades não são meras extensões de uma capital que concentra o olhar sobre si. São territórios com história própria, cuja participação política não pode ser tratada como inconveniente quando seus eleitores escolhem um caminho diferente daquele preferido na cidade do Rio.

Se a eleição de Douglas Ruas reabriu o debate sobre a divisão do estado, talvez seja a hora de aproveitar a oportunidade para discutir algo mais profundo: como aproximar a capital do restante do território e como construir uma relação política menos desigual entre as regiões fluminenses. A resposta não está necessariamente em traçar uma nova fronteira, mas em reconhecer que a distância entre a capital e o interior é um problema histórico que precisa ser enfrentado.

No fim das contas, o elitismo não está em defender ou rejeitar, por princípio, a existência de dois estados. Está em acreditar que uma decisão dessa dimensão pode ser tomada a partir da insatisfação de uma parte do território, sem considerar a vontade e as necessidades das demais. A capital tem o direito de discutir seu futuro, mas não de decidir sozinha o destino de todos.