
Por Tio Marcílio - Colunista Educador
A educação é muito mais do que uma política pública. É o instrumento que determina as possibilidades de desenvolvimento de uma nação, a formação de seus cidadãos e a capacidade de uma sociedade construir o próprio futuro. Por isso, quando discutimos direita e esquerda no Brasil, precisamos ir além das disputas partidárias e fazer uma pergunta fundamental: que tipo de cidadão estamos formando e que país queremos entregar às próximas gerações?
Como educador, entendo que a escola não pode ser reduzida a um espaço de reprodução de ideologias. Sua missão deve ser formar pessoas capazes de pensar, questionar, interpretar a realidade, respeitar opiniões diferentes e assumir responsabilidades. O estudante precisa aprender a construir suas próprias convicções, e não simplesmente repetir aquilo que lhe é apresentado como verdade absoluta.
É justamente nesse ponto que o debate entre direita e esquerda merece atenção.
Educação não pode ser refém de partidos
A esquerda brasileira tradicionalmente defende o fortalecimento da educação pública, a ampliação do acesso ao ensino superior e políticas voltadas à redução das desigualdades sociais. São questões relevantes em um país marcado por diferenças econômicas e educacionais profundas.
A direita, por sua vez, costuma enfatizar disciplina, responsabilidade individual, autoridade do professor, liberdade das famílias, formação profissional e aproximação entre educação e mercado de trabalho. Também são temas que merecem ser discutidos com seriedade.
O problema começa quando qualquer dessas visões deixa de ser uma proposta a ser avaliada e passa a ser tratada como uma verdade incontestável.
Não existe educação de qualidade sem professores valorizados, alunos comprometidos, famílias presentes, gestão responsável e políticas públicas capazes de produzir resultados. Tampouco existe formação cidadã consistente quando o pensamento crítico é confundido com a obrigação de concordar com determinada corrente política.
A escola deve ensinar o aluno a pensar, não determinar o que ele deve pensar.
O papel do Estado e a responsabilidade das famílias
Um dos grandes desafios brasileiros é garantir que crianças e jovens tenham acesso a uma educação que realmente produza aprendizagem. Não basta assegurar matrícula. É necessário que o estudante aprenda a ler, escrever, interpretar, calcular e compreender o mundo ao seu redor.
O Estado tem a obrigação de garantir acesso, qualidade, infraestrutura e condições adequadas de ensino. Entretanto, nenhuma política pública substitui completamente a participação da família, o compromisso dos estudantes e o trabalho dos profissionais da educação.
Investir mais recursos pode ser necessário, mas o investimento precisa vir acompanhado de planejamento, transparência, acompanhamento de resultados e boa gestão. Da mesma forma, defender eficiência não pode significar ignorar as dificuldades enfrentadas por escolas que atendem populações vulneráveis.
O debate não deve ser simplesmente sobre gastar mais ou gastar menos. Deve ser sobre como garantir que cada recurso investido se transforme em aprendizagem.
Empresariado e educação: uma relação indispensável
Outro ponto que merece atenção é a relação entre educação e empresariado. Durante muito tempo, o debate público tratou o setor empresarial e a educação como se pertencessem a universos separados. Essa visão precisa ser superada.
O desenvolvimento econômico depende de trabalhadores qualificados, capacidade de inovação e formação técnica. As empresas precisam de profissionais preparados para lidar com tecnologia, gestão, comunicação e resolução de problemas. Os jovens, por sua vez, precisam encontrar caminhos reais para ingressar no mercado de trabalho, conquistar autonomia financeira e construir uma trajetória profissional.
A aproximação entre instituições de ensino e empresas pode contribuir para estágios, aprendizagem profissional, cursos técnicos e oportunidades de primeiro emprego. Quando realizada com responsabilidade, essa parceria beneficia estudantes, instituições e a economia.
Isso não significa transformar a escola em uma extensão dos interesses empresariais. A educação deve formar cidadãos completos, e não apenas trabalhadores para ocupar vagas disponíveis. Mas também não faz sentido ignorar o mundo do trabalho e deixar os jovens concluírem sua formação sem perspectivas concretas de inserção profissional.
O empresariado precisa compreender que investir na formação de pessoas é investir no próprio futuro. E o poder público precisa criar condições para que empreender, contratar, inovar e produzir sejam atividades capazes de gerar oportunidades para a sociedade.
Assistencialismo ou emancipação pela educação?
O Brasil também precisa enfrentar um debate delicado: como conciliar proteção social com autonomia econômica?
Programas sociais são importantes para amparar famílias em situação de vulnerabilidade. Em momentos de necessidade, a assistência pode representar a diferença entre a privação e o acesso a condições básicas de sobrevivência. Não se deve confundir a defesa de políticas sociais com a aceitação de qualquer modelo de gestão dessas políticas.
A questão central é garantir que a assistência esteja acompanhada de oportunidades. Educação de qualidade, qualificação profissional, acesso ao emprego e incentivo ao empreendedorismo podem ajudar as famílias a ampliar sua autonomia.
O objetivo de uma política pública eficiente deve ser proteger quem precisa de ajuda e, ao mesmo tempo, remover os obstáculos que impedem as pessoas de construir uma vida melhor.
Não se trata de culpabilizar quem depende de benefícios sociais, mas de cobrar dos governantes políticas capazes de oferecer caminhos concretos para o desenvolvimento humano e econômico.
A educação ocupa posição central nesse processo. Sem formação adequada, as oportunidades diminuem. Sem oportunidades, a mobilidade social se torna mais difícil. E, quando a escola não consegue cumprir sua função, o país compromete não apenas o presente dos estudantes, mas também sua capacidade de crescer no futuro.
O verdadeiro compromisso deve ser com o aluno
Como educador, acredito que o Brasil precisa abandonar a ideia de que toda discussão sobre educação deve terminar em uma disputa entre direita e esquerda.
É legítimo discordar sobre currículo, financiamento, gestão escolar, participação do setor privado e papel do Estado. O que não podemos aceitar é que essas divergências sejam mais importantes do que a aprendizagem dos alunos.
Precisamos de professores respeitados, escolas organizadas, famílias participativas, estudantes preparados e gestores cobrados por resultados. Precisamos de liberdade para debater ideias, responsabilidade na utilização dos recursos públicos e compromisso com a formação intelectual e profissional das novas gerações.
A educação não pode ser instrumento de perpetuação de partidos, tampouco pode ser tratada apenas como mecanismo de preparação para o mercado. Ela deve desenvolver conhecimento, caráter, autonomia, senso de responsabilidade e capacidade de convivência democrática.
O Brasil não precisa de uma escola que produza eleitores de direita ou de esquerda. Precisa de uma escola que forme cidadãos capazes de escolher seus representantes com consciência, avaliar propostas com espírito crítico e compreender que nenhuma ideologia está acima do interesse público.
No fim das contas, o futuro do país não será definido apenas por quem vencerá a próxima eleição, mas pela qualidade da educação que oferecemos hoje às crianças e aos jovens.
Essa é a reflexão que deveria unir educadores, famílias, empresários e governantes: menos disputa pelo controle do pensamento e mais compromisso com a formação de pessoas capazes de transformar o Brasil.
Porque uma nação que não prepara suas próximas gerações compromete o próprio futuro. E nenhuma bandeira partidária será capaz de compensar o preço de uma educação que deixa de cumprir sua missão.
Esta coluna expressa uma reflexão sobre educação, desenvolvimento econômico e diferentes correntes políticas, com foco na formação cidadã e no futuro do Brasil.
